sexta-feira, 10 de junho de 2011

Árvore dos Sonhos

Começou com umas poucas dezenas de pessoas. Balões verdes. Alguns rostos pintados. Um pequeno carro som. Palavras de ordem e gritos em defesa do meio ambiente. Música. Animação. Alguns olham, meio tímidos. Chamados. Professores vão se juntando à passeata, que cresce e percorre a escola, até o ponto de um grande círculo abraçar a mangueira próximo à biblioteca. Os sonhos são pendurados na mangueira. Está construída a Árvore dos Sonhos!
 Foi com essa passeata crescente e contagiante que a I Semana de Integração e Meio Ambiente do IFPA Campus Castanhal foi encerrada. Uma empolgação que marcou toda a atividade, com as palavras de ordem de vários professores e estudantes, principalmente dos professores Romier Sousa e Fernando Favacho, além, é claro, da turma do Pós Médio em Meio Ambiente, a grande responsável pelo evento, que foi capaz de mobilizar toda a instituição para uma Semana do Meio Ambiente que parecia que nem iria acontecer.

Pois não só aconteceu, como aconteceu de forma brilhante. Tanto pelo protagonismo estudantil como pela capacidade de uma turma recém-chegada na Instituição mostrar a que veio. A grande roda que se formou ao redor da Árvore dos Sonhos reuniu professores e estudantes dos níveis médio, subsequente e superior, e de praticamente todos os cursos.
Concluída a dinâmica da Árvore dos Sonhos, todos se dirigiram a um bosque próximo do prédio administrativo. Não haviam mudas para todo mundo, mas isso não foi problema. As pessoas se juntaram em duplas, trios, grupos, para plantarem juntas as árvores que dentro de alguns anos cresceram e simbolizaram um momento que se pretende ter continuidade. Uma nova roda abraçando agora o bosque e um discurso emocionado do Diretor Geral do campus, Edinaldo Feitosa, acompanhado de representantes de todos os cursos, que culminou com uma grande troca de abraços entre todos.


A primeira turma de Meio Ambiente deu um grande exemplo de que os estudantes podem ser protagonistas de ações inteligentes, criativas, capazes de apontar alternativas para melhorar a qualidade de vida de forma sustentável. Para quem acha que o mérito desses estudantes se encerra na condução de palestras, minicursos, mostras e uma passeata interna em defesa do meio ambiente, é bom que se esclareça que não pára por aí. A turma tem projetos. Não fizeram uma enquete sobre as situações-problemas da escola à toa. Foram além das críticas e cobranças. Eles cobram, mas fazem. No refeitório, já iniciaram uma coleta seletiva do lixo, atividade que, todos torcemos, tende a crescer e se multiplicar aqui no campus.

Recém-chegados? Bem, nem tanto. Uma turma composta com veteranos já formados como Maysa Ribeiro, Jean Gualdez e Thiago Braga (só para citar alguns) e uma porção de talentos novos e sedentos por conhecimento que já se enveredam na organização do Grêmio Estudantil e na condução de projetos, mergulhando a fundo na vida da comunidade escolar e coordenando uma atividade que fez com que professores e estudantes gritassem o orgulho de ser agricolinos, merece admiração e respeito que se dá aos experientes. Se em um semestre de aulas foram capazes de organizar uma Semana do Meio Ambiente como a que vimos essa semana, podemos talvez esperar ansiosos pelos passos dessa turma ao longo dos próximos doze meses. E de outras que se inspirem em iniciativas como essa e também façam a diferença. Afinal, talento é o que não nos falta por aqui.












terça-feira, 7 de junho de 2011

Semana do Meio Ambiente: oficinas, minicursos, mostras

Nesta tarde, a programação da Semana do Meio Ambiente conta com várias atividades paralelas: mostras, exposição, mini-cursos, oficinas, que estão sendo realizadas em salas do prédio de aulas, prédio de laboratórios, agroindústria, laboratório de informática e no pátio coberto.

Vários estudantes estão participando, aproveitando as oportunidades de aprendizado que o evento está proporcionando. Vários professores também estão envolvidos nas atividades, ministrando as oficinas e mini-cursos e orientando estudantes que apresentam seus trabalhos. A turma de Pós Médio em Meio Ambiente tem demonstrado bastante comprometimento e assumido a organização do evento. Enfim, oportunidades como essa essa mostram o potencial de estudantes e servidores de nosso campus, e servem para demonstrar o quanto de conhecimento existe nesta Instituição, precisando de espaços como esse para serem socializados com a comunidade escolar.

Pena que nem todos aproveitem a riqueza desses momentos. Não dá para não comentar a ausência de alguns professores e também de vários estudantes, que aproveitam a liberação das aulas para não vir ao campus. Lamentável. Eventos como esse servem para mostrar quem de fato se envolve e veste a camisa, para além de queixas e críticas vazias. Ainda é preciso que muitos estudantes e, especialmente, que vários professores entendam (ou queiram entender) que eventos e atividades dessa natureza devem ser explorados e aproveitados como parte do currículo escolar. A Coordenação Geral de Ensino circulou um informe muito claro que diz que a liberação das aulas era para participação nas atividades da Semana Pedagógica. Ou seja, quem resolveu tirar uma folguinha nesses dias deve levar falta, o que também tem que valer para o ponto dos servidores. É lógico que algumas pessoas devem ter tido motivos justificáveis para não estarem presentes. Mas, com certeza não é o caso de todos.

E quem disse que o evento perde seu brilho por conta dessas ausências? É importante salientar os aspectos positivos de uma ação de iniciativa dos estudantes, com o apoio da Instituição e o envolvimento de muitos professores, técnico-administrativos e estudantes com sede por conhecimento e por uma formação não somente técnica, mas sobretudo humana, debatendo alternativas para viabilizar a convivência harmônica do homem em meio à natureza da qual o mesmo faz parte, de forma sustentável, garantindo qualidade de vida a esta e às próximas gerações. E garantindo o sucesso do evento através do alcance do objetivo a que a turma organizadora do evento (PM Meio Ambiente) se propôs, que é, nas palavras deles próprios, a dinamização da aprendizagem no contexto mundial ligada ao meio ambiente, integrando as diversas áreas de ensino do campus. Isso é currículo integrado. Que mais pessoas se entreguem e se integrem a isso. Amém!

 Mostra fotográfica "Coleta de Lixo no IFPA" (Turma PM Meio Ambiente)

 Minicurso "Sustentabilidade e Grandes Projetos na Amazônia", ministrado pelo professor Ângelo Carvalho

 Oficina "Aventura e meio ambiente: aspectos de planejamento e vivência em ambientes naturais" (professores Shirley Nascimento, Gil Mendes e Everaldo Rayol)

Estudantes apresentando a exposição "Transgênicos na agropecuária e meio ambiente", com orientação dos professores Álvaro Ayres e Alisson Souza

Oficina "Reciclagem: pet, sombrinha e sacola", ministradas pelos técnicos e estudantes Jean Silva e Camila Jackson

 Minicurso "Aproveitamento de resíduos agroindustriais" (Profª Suezilde Ribeiro)

Minicurso "Sistema de Posicionamento Global" (Prof. Cícero Paulo)

Mais fotos no orkut do campus: http://www.orkut.com.br/Main#Album?uid=11756825487519264360&aid=1307434417

Semana do Meio Ambiente

A turma de Pós Médio em Meio Ambiente (a primeira do curso, iniciado neste ano) está promovendo, de hoje até o dia 09 de junho, a Semana de Integração e Meio Ambiente do IFPA Campus Castanhal.


Tivemos hoje pela manhã o credenciamento dos participantes e a abertura do evento. Houve uma apresentação artística e o pronunciamento do Diretor Geral do campus, Professor Edinaldo Feitosa. Em seguida, deu-se início a uma mesa redonda, com o tema "A sustentabilidade do saber: relações entre ser humano, meio ambiente e trabalho". A mesa foi composta pelo Prof. Dr. Mário Médice Barbosa, de nosso campus, pelo Prof. Dr. Carlos Renilton, da UFPA e pelo Eng. Ambiental Benedito Evandro, da Secretaria Estadual de Meio Ambiente - SEMA e Especialista em Gestão Ambiental. Curiosidade: esses dois últimos, Carlos Renilton e Benedito Evandro, são ex-estudantes de nossa Instituição.


O evento prossegue nesta tarde com mini-cursos e oficinas. Abaixo, a programação do restante da Semana:


07 DE JUNHO (TERÇA-FEIRA):

14h OFICINAS:
1.       Aproveitamento de óleo de cozinha e fabricação de sabão; (Maiza Ribeiro)
2.       Aventura e meio ambiente: Aspectos de planejamento e vivência em ambientes naturais. (Prof. Gil Mendes/ Prof. Shirley Nascimento/ Prof. Everaldo Rayol)
3.       Reciclagem: pet, sombrinha e sacola (Tec. Jean Silva/Tec. Camila Jackson)
MINICURSOS:
1.       Sustentabilidade e grandes projetos na Amazônia. (Prof. Msc. Angelo Carvalho, IFPA)
2.       Sistema de Posicionamento Global (Prof. Dr. Cícero Paulo Ferreira)
3.       Aproveitamento de resíduos agroindustriais (Prof. Drª. Suezilde Ribeiro - IFPA)

O8 DE JUNHO (quarta-feira)

07h30 Palestra: LEGISLAÇÃO AMBIENTAL: ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE E RESERVA LEGAL (Prof. Msc. Klewton Adriano/ Prof. Msc. Aldrin Benjamin - IFPA)
07h30 Oficinas: Produção de compostos orgânicos/ Produção de hortaliças em garrafas pet. (Agronomia 2010)
09h Palestra: CRIMES AMBIENTAIS (Diretoria de fiscalização - SEMA)
10h Palestra: MUDANÇAS CLIMÁTICAS E AÇÕES HUMANAS SOBRE O MEIO. (Prof. Msc. Aparecida Rodrigues Nery/ Prof. Edenaldo Silva - IFPA).
LOCAL: AUDITÓRIO CENTRAL
14h OFICINAS:
1.       Aventura e meio ambiente: Aspectos de planejamento e vivência em ambientes naturais. (Prof. Gil Mendes/ Prof. Shirley Nascimento/ Prof. Everaldo Rayol).
2.       Aproveitamento de resíduos na fabricação de biscoitos. (José Tavares).
14h: MINICURSOS:
1.       Sustentabilidade e grandes projetos na Amazônia. (Prof. Msc. Ângelo Carvalho, IFPA)
2.    Sistema de Posicionamento Global (Prof. Dr. Cícero Paulo Ferreira)
3.     Cadastro Ambiental Rural (Diana Castro - SEMA)
       19h20: DOCUMENTÁRIO “AS TERRAS DO BEM VIRÁ”. (Auditório central)

09 DE JUNHO (quinta-feira)

07h30 Palestra: LIXO - PROBLEMAS E POSSÍVEIS SOLUÇÕES (Helena Silva – Secretaria Municipal de Urbanismo);
09h Palestra: DIREITOS AMBIENTAIS (Prof. Dr. Maurício Borges – UFPA)
10h Palestra: REFORMA AGRÁRIA E MEIO AMBIENTE (Ulisses- Coordenação estadual do MST)
14h  Dinâmica: CONSTRUÇÃO DA ÁRVORE DOS SONHOS.
14h Minicurso: Geoprocessamento aplicado ao CAR (Prof. Msc. Aldrin Benjamin) (Lab. de info. 02)
16h40 CERTIFICAÇÃO DOS PARTICIPANTES DAS PALESTRAS, MINI-CURSOS E OFICINAS
LOCAL: AUDITÓRIO CENTRAL
Exposição: Trangênicos na agropecuária e meio ambiente (L. de biologia), dias 07 e 08/06.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

NEA e PET implantam projeto de pesquisa em apicultura em Abaetetuba

Com o acompanhamento dos professores Arnaldo Pantoja e Romier Sousa, estudantes de Agronomia que fazem parte do NEA e do PET estiveram nos dias 20 e 21 de maio deste ano nas ilhas de Capim e Xingu, no município de Abaetetuba, para implantação de um projeto de pesquisa do desenvolvimento da apicultura nessa ilhas.

O professor Romier Sousa produziu uma memória com fotos e relatos das experiências e nos enviou, a qual adaptamos e reproduzimos aqui.

O referido Projeto havia sido demandado pelos Educandos do Curso Técnico em Agropecuária com Ênfase em Agroecologia apoiado pelo PRONERA em 2009. Tais atividades foram frutos da construção de projetos de vida ou produção, metodologia desenvolvida durante o 3º ano do Curso. Os educandos das Ilhas do Capim e Xingu demandaram a implantação de Projeto articulando a vegetação das Ilhas e a atividade apícola;


O Agroecossistema predominante na ilha do Capim é a Várzea, com predominância do cultivo do açaí. Contudo, com uma riqueza de diversidade de espécies de plantas e animais. Além do açaí, principal atividade comercial das famílias nas Ilhas, os camponeses exploram a pesca artesanal de peixe e camarão. Fazem usos de diversos produtos florestais, como frutos, resinas, óleos, sementes, fibras e outros. O Agroecossistema mantém grande parte de sua fertilidade do solo a partir da ciclagem da matéria orgânica em função do manejo dos açaizais e do fluxo das águas barrentas do Rio.


Em preparação da atividade, foi apresentada a proposta de trabalho, feito o planejamento das ações e as as primeiras primeiras reflexões sobre a criação de abelhas em área de várzea. O dialogo de saberes de educadores, Educandos e camponeses sobre o local de implantação da atividade marcou o processo de escolha do local na Ilha do Capim, com reflexões sobre as melhores condições de criação de abelhas e a dinâmica da Floresta.

Em seguida, veio o preparo de área: limpeza de uma área de 30m x 5m, havendo preocupação com luminosidade para as abelhas nas primeiras horas do dia, buscando o incentivo à saída da colméia.


O trabalho como princípio educativo norteou todo o processo de aprendizagem e de desenvolvimento do projeto, tendo-se em consideração que a natureza é transformada pelos seres humanos a partir dos processos de trabalho. Ou seja, a criação de Agroecossistemas pressupõe a ação humana. Diante disso, como pensar o trabalho numa perspectiva formativa? Em geral, o trabalho na formação é realizado de maneira fragmentada, desconectada e não reflexiva. A idéia central de se fazer essa reflexão foi fazer perceber o trabalho como elo de ligação interdisciplinar e como perspectiva de formação de uma consciência coletiva de ser.


Foi feito uso dos recursos locais disponíveis: produção dos apoiadores das caixas de abelhas; uso de madeira local; aproveitamento dos recursos florestais locais; numa perspectiva de autonomia do campesinato.
Os conhecimentos técnicos foram aplicados pelos estudantes, com a demarcação do local das colméias, retirada dos tocos da área e nivelamento da caixa, com intenso diálogo de saberes entre o Professor Arnaldo, educandos e camponeses. Ensinou-se o posicionamento correto das colméias, sendo importante haver uma leve declividade na saída do alvado, pois em caso de chuva, a colméia não é molhada no interior. A posição em direção ao nascente também foi tema de discussão, pois é fundamental que as abelhas percebam o nascer do sol logo nas primeiras horas do dia, o que lhes indica a possibilidade de ir ao campo coletar pólen.
O manejo do açaí, atividade âncora na geração de renda monetária das famílias nas ilhas de Abaetetuba, esteve bastante presente na implantação do projeto. Nossos estudantes puderam ter o aprendizado sobre o manejo dos açaizais nativos, e durante o desenvolvimento da atividade houve uma pausa para colher o açaí, que seria apreciado no jantar. Neste momento, os camponeses tornaram-se educadores, demonstrando todo conhecimento sobre o cultivo da palmeira e sobre a arte de produção da peconha, apetrecho utilizado para subir no açaízeiro, arte essa transmitida de geração a geração.
Até mesmo um acidente com a estudante Priscila Rollo, que caiu de uma das palafitas, serviu para gerar uma reflexão. Sem condições de levar a educanda para um hospital, refletiu-se sobre as dificuldades das famílias ribeirinhas de acesso ao serviço público de saúde (o igarapé que dava acesso à casa estava seco (maré baixa); não tinham barco; e a noite é muito perigoso atravessar o rio até Abaetetuba, em função dos Piratas (isso mesmo, nós temos piratas, quem disse que é só coisa de filme?). E a equipe pôde verificar a importância da Medicina Camponesa e do saber caboclo, quando a mãe do estudante Hueliton pegou o óleo de andiroba para “puxar” os machucados, esquentando-a em luz de vela. A estudante Priscila passa bem.


O professor Arnaldo aproveitou a noite para exibir e debater um vídeo sobre criação de abelhas. No dia seguinte, 21 de maio de 2011, foi a vez de implantar o projeto na ilha do Xingu. O agroecossistema é bem semelhante a Ilha do Capim. Contudo, com mais área de terra firma. Os camponeses desenvolvem atividades de produção de farinha de mandioca. Em uma avaliação preliminar, o Prof. Arnaldo observou uma florada mais diversificada na Ilha.

O grupo voltou a fazer a atividade de escolha e limpeza da área e demarcação das colméias. Após um banho de chuva na floresta, os estudantes terminaram o dia se descontraindo com passeios de barco e banhos de rio. 


O próximo passo será a preparação dos núcleos de abelhas e pintura das caixas para retornar e implantar nos locais definidos. A previsão de retorno é no mês de junho.

A Bíblia e os Gays


Tem causado muita polêmica a legalização da união homoafetiva no Brasil.  Com uma cultura homofóbica ainda muito arraigada, vai demorar um pouco ainda para que as pessoas compreendam que o direito dos gays e das lésbicas se unirem em casamento não fere em nada o direito dos heteros, e que já passa da hora de aceitarmos essas opções sexuais não como anomalias, mas como escolhas que merecem ser respeitadas e que não são nem um pouco menos dignas de respeito do que as outras tidas como "normais", obedecendo a padrões culturalmente impostos ao longo de nossa história.

Lembro de uma cena do filme do gênio Woody Allen, chamado Vicky Cristina Barcelona, em que uma das personagens começa uma relação com um artista recém separado e depois passa a ter que conviver com a ex-esposa que volta para a casa do mesmo. A relação no início é conflituosa, mas depois dá lugar a um triângulo amoroso. Comentando com uma amiga e o noivo regradinho da mesma o fato de estar se dando bem com a ex-esposa do atual affair, o bendito noivo se escandaliza e pergunta: "Então você admite ser bissexual?" Ao que a personagem responde: "Por que nós precisamos criar rótulos para tudo o que fazemos?" 

Considero a resposta brilhante. Uma sociedade na qual as pessoas pudessem ser elas mesmas, sem máscaras, sem necessidade de atender a todos os padrões que nos enfiam goela abaixo, na qual a máxima de Jesus "amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo" fosse o lema que nutre a vida de todos, penso que viveríamos muito mais felizes, sem tantos medos, neuras e preconceitos.

Brilhante também é o texto do premiado escritor Frei Beto, que reproduzo abaixo, com uma reflexão muito interessante sobre os estigmas que ainda nos perseguem quando falamos dos direitos de homens e mulheres homossexuais.


A BÍBLIA E OS GAYS

por Frei Beto

É no mínimo surpreendente constatar as pressões sobre o Senado para evitar a lei que criminaliza a homofobia. Sofrem de amnésia os que insistem em segregar, discriminar, satanizar e condenar os casais homoafetivos.

No tempo de Jesus, os segregados eram os pagãos, os doentes, os que exerciam determinadas atividades 
profissionais, como açougueiros e fiscais de renda. Com todos esses Jesus teve uma atitude inclusiva.

Mais tarde, vitimizaram indígenas, negros, hereges e judeus. Hoje, homossexuais, muçulmanos e migrantes pobres (incluídas as "pessoas diferenciadas"...). Relações entre pessoas do mesmo sexo ainda são ilegais em mais de 80 nações. Em alguns países islâmicos elas são punidas com castigos físicos ou pena de morte (Arabia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Nigéria etc).

No 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 2008, 27 países-membros da União Europeia assinaram resolução à ONU pela "despenalização universal da homossexualidade".

A Igreja Católica deu um pequeno passo adiante ao incluir no seu catecismo a exigência de se evitar qualquer discriminação a homossexuais. No entanto, silenciam as autoridades eclesiásticas quando se trata de se pronunciar contra a homofobia. E, no entanto, se escutou sua discordância à decisão do STF ao aprovar o direito de união civil dos homoafetivos.

Ninguém escolhe ser homo ou heterossexual. A pessoa nasce assim. E, à luz do Evangelho, a Igreja não tem o direito de encarar ninguém como homo ou hetero, e sim como filho de Deus, chamado à comunhão com Ele e com o próximo, destinatário da graça divina.

São alarmantes os índices de agressões e assassinatos de homossexuais no Brasil. A urgência de uma lei contra a homofobia não se justifica apenas pela violência física sofrida por travestis, transexuais, lésbicas etc. Mais grave é a violência simbólica, que instaura procedimento social e fomenta a cultura da satanização.
A Igreja Católica já não condena homossexuais, mas impede que eles manifestem o seu amor por pessoas do mesmo sexo. Ora, todo amor não decorre de Deus? Não diz a Carta de João (I,7) que "quem ama conhece a Deus" (observe que João não diz que quem conhece a Deus ama...).Por que fingir ignorar que o amor exige união e querer que essa união permaneça à margem da lei? No matrimônio são os noivos os verdadeiros ministros. E não o padre, como muitos imaginam. Pode a teologia negar a essencial sacramentalidade da união de duas pessoas que se amam, ainda que do mesmo sexo?

Ora, direis, ouvir a Bíblia! Sim, no contexto patriarcal em que foi escrita seria estranho aprovar o homossexualismo. Mas muitas passagens o subtendem, como o amor entre Davi por Jônatas (I Samuel 18), o centurião romano interessado na cura de seu servo (Lucas 7) e os "eunucos de nascença" (Mateus 19). E a tomar a Bíblia literalmente, teríamos que passar ao fio da espada todos que professam crenças diferentes da nossa e odiar pai e mãe para verdadeiramente seguir a Jesus.

Há que passar da hermenêutica singularizadora para a hermenêutica pluralizadora. Ontem, a Igreja Católica acusava os judeus de assassinos de Jesus; condenava ao limbo crianças mortas sem batismo; considerava legítima a escravidão; e censurava o empréstimo a juros.Por que excluir casais homoafetivos de direitos civis e religiosos?

Pecado é aceitar os mecanismos de exclusão e selecionar seres humanos por fatores biológicos, raciais, étnicos ou sexuais. Todos são filhos amados por Deus. Todos têm como vocação essencial amar e ser amados. A lei é feita para a pessoa, insiste Jesus, e não a pessoa para a lei.


Frei Beto.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Líderes contra o desmatamento assassinados no Pará

Reproduzimos abaixo a nota publicada por Programas de Pós-Graduação da Universidade Federal do Pará e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sobre o assassinato do casal José Cláudio e D. Maria no dia 24 de maio último, em Nova Ipixuna do Pará. Manifestamos nosso repúdio e juntamos nossos gritos de protesto contra a crueldade e opressão com que os povos do campo continuam sendo tratados por conta da defesa de seus direitos, corriqueiramente desrespeitados em função de interesses capitalistas, cujos representantes exploram a natureza e o ser humano com a finalidade do lucro a qualquer preço. Até quando vai durar esse coronelismo centenário em nossa Amazônia?

Nota pública do Programa de Pós-Graduação em Agriculturas Amazônicas (PPGAA/UFPA) e do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural (PGDR/UFRGS)

“As árvores são nossas irmãs” (Zé Cláudio)

A área do Projeto Agroextrativista (PAE) Praia Alta Piranheira foi um maciço castanhal que só os moradores mais antigos conheceram. O castanhal foi explorado durante muito tempo por uma família de Marabá, que se dizia “dona”, e por centenas de famílias que coletavam livremente os produtos generosamente cedidos pela natureza. Além da castanha, eram e ainda são facilmente encontrados na floresta do PAE produtos como açaí, andiroba, cupuaçu, diferentes tipos de cipós, ervas medicinais e muitas espécies madeireiras de alto valor econômico.

Na década de 1990, um grupo de famílias apoiado por organizações não governamentais e governamentais deu início à solicitação de criação do PAE Praia Alta Piranheira. Entre essas famílias encontravam-se JOSÉ CLÁUDIO RIBEIRO DA SILVA (Zé Cláudio) e sua esposa MARIA DO ESPÍRITO SANTO SILVA (D. Maria). Zé Claudio e D. Maria eram os mais fervorosos defensores da criação do PAE por acreditarem na possibilidade de se estabelecer uma relação diferente com a natureza.

Finalmente criado em 1997, o PAE abrigava mais de 300 famílias de agricultores que se propunham a explorar a natureza de uma forma distinta da comumente adotada na região. Zé Claudio e D. Maria exercitaram essa nova proposta ao extremo: transformaram seu lote em um laboratório de experiências que demonstrava uma convivência mais harmoniosa entre homem e natureza e, mais que isso, acabaram se tornando sentinelas da preservação e transformando seu espaço de vida em uma zona de resistência ao desmatamento. Com quase 15 anos vivendo no mesmo lugar, o casal mantinha 80% do seu lote preservado.

Essa façanha era motivo de orgulho para Zé Claudio e D. Maria. Por essa peculiaridade, em uma região onde predomina o desmatamento, não demorou muito para que o lote de Zé Claudio e D. Maria chamasse atenção de pesquisadores, da mídia, além de servir de estímulo e exemplo para centenas de famílias de agricultores que intercambiavam conhecimentos com o casal.

Na busca de comprovações na linguagem acadêmica de que, além do valor cultural, a floresta em pé é mais valiosa economicamente que em toras, Zé Claudio e D. Maria se aliaram com os pesquisadores. A Universidade Federal do Pará (em especial as ações do Campus Universitário de Marabá e do Núcleo de Ciências Agrárias e Desenvolvimento Rural) apoiou e ampliou cooperações científicas (nacionais e internacionais) com a participação dessas lideranças, que muito contribuíram com ações concretas na busca de alternativas sustentáveis de combate ao desmatamento.

No início deste ano, Dona Maria defendeu sua monografia e obteve seu diploma de graduação no curso de Pedagogia do Campo, assim como vários assentados e lideranças que acessam com frequência os espaços da UFPA e de outras instituições de pesquisa.

O filho caçula do casal cursa atualmente o ensino médio no Instituto Federal do Pará/Campus Rural de Marabá (IFPA/CRMB), concebido especialmente para grupos sociais no campo. Esta família é um exemplo de busca e implementação de políticas públicas que realmente valorizem as demandas dos camponeses que habitam neste complexo espaço agrário marcado pela deficiente ação do Estado brasileiro.

Porém, a presença de espécies de alto valor comercial na área do PAE atraía outros interesses. Madeireiros e carvoeiros lançaram uma ofensiva forte sobre as famílias. Num contexto de dificuldades econômicas, muitas cederam ao conto do lucro fácil, o que facilitava a ação ilegal desses exploradores da floresta. Protegidos pela ineficiência do Estado em fazer cumprir a lei ambiental, esses agentes circulam livremente no PAE, consumindo a floresta numa velocidade estonteante. Até a castanheira, árvore protegida por lei, é derrubada sem piedade e sua madeira “maquiada” e colocada no mercado com outros nomes.

A preocupação de Zé Claudio e D. Maria com a preservação da cobertura vegetal extrapolava o seu próprio lote e se estendia a todo o PAE. Foi exatamente essa preocupação que os levou a denunciar a exploração ilegal de madeira dentro do PAE. Órgãos como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA), Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e Policia Federal receberam inúmeras denúncias formuladas pelo casal. Sem nenhuma resposta efetiva por parte desses órgãos, assumiram a responsabilidade como cidadãos e assentados e passaram a tomar iniciativas de ação direta, interditando estradas, parando caminhões carregados com toras de madeira, anotando as placas, sem medir esforços em defesa das árvores.

Essa atitude corajosa do casal, motivada por um sentimento nobre e de coerência com seus princípios, despertou a ira dos madeireiros, carvoeiros e alguns fazendeiros com interesse nas áreas do PAE. Zé Claudio e D. Maria passaram a sofrer ameaças por defenderem a floresta em pé. Na verdade, eles tentavam fazer o que de direito seria dever do Estado: proibir a exploração ilegal de madeira conforme reza a lei. Sem o apoio do Estado, Zé Claudio e D. Maria defendiam a floresta com a própria vida e tinham consciência do que faziam. Em 2010, em um evento na cidade de Manaus, Zé Claudio disse: “Eu defendo a floresta e seus habitantes em pé, mas devido a esse meu trabalho sou ameaçado de morte pelos empresários da madeira, que não querem ver a floresta em pé”.

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) já havia denunciado as ameaças sofridas pelo casal. Zé Claudio e D. Maria faziam parte da lista de 29 pessoas marcadas para morrer no Pará, divulgada pela CPT em 2010. Que sociedade é essa? Uma sociedade na qual as mortes são anunciadas com bastante antecedência e as autoridades não tomam providências! Uma sociedade onde os valores se inverteram. Quem defende a vida, paga com a morte! Quem se preocupa com o bem comum é eliminado para desobstruir o caminho do lucro fácil!

No dia 24 de maio de 2011, em uma tocaia armada por “pistoleiros”, escondidos em uma estrada que Zé Claudio e D. Maria usavam no trajeto entre seu lote e a cidade de Nova Ipixuna, foram desferidos os disparos mortais contra o casal. Não satisfeitos com a crueldade praticada, ainda deceparam a orelha de Zé Claudio, provavelmente para servir de prova da encomenda realizada. Essa infâmia, muito comum no período do coronelismo no nordeste brasileiro, é agora reeditada na Amazônia. Dias antes, a casa do Zé Claudio e D. Maria havia sido rondada por pistoleiros e alguns de seus animais domésticos foram alvejados. No dia do assassinato, Zé Claudio e D. Maria estavam saindo de sua casa para procurar segurança na cidade, dado que, aparentemente, o Estado era incapaz de fornecer segurança. Infelizmente, não tiveram tempo de chegar a um lugar seguro.

E, desta forma, o Ano Internacional da Floresta segue marcado por injustiças, impunidades, descasos com as pessoas, suas escolhas e seus direitos. Exigimos que o governo brasileiro não deixe que Zé Cláudio e D. Maria sejam apenas mártires, como tantos outros produzidos na Amazônia, e muitos menos que sejam uma mera estatística criminal. Para se ter a Democracia, certamente precisamos de códigos e leis. E, certamente, o debate democrático acerca dos mesmos é necessário. No entanto, sabemos que não existe Democracia quando o direito de matar aqueles que contestam o poder dominante é assegurado pela complacência à violação do direito fundamental à vida. A Amazônia e os “povos da floresta” não necessitam de mais mártires, mas de pessoas vivas, comprometidas e éticas, que os mantenham. Eles não necessitam de mais violência. Eles têm o direito – constitucional – a dignidade, liberdade de expressão, autonomia e exercício da cidadania.

Em qualquer lugar, e no Brasil que se diz uma Democracia, não é admissível que pessoas possam ser assassinadas pela divergência ao poder corrente e pelo exercício de seus direitos. Não é possível haver “dois Estados” e “duas leis” em um só país, afinal, uma lei que vale apenas para alguns, não é lei.

Os assassinatos de José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva não são ocorrências individuais, são um problema nosso, de toda a sociedade brasileira. Precisamos reagir.

Reagimos porque acreditamos que podemos contribuir, interrogando sobre os conceitos que fundam a interpretação dos conflitos na Amazônia e permeiam as políticas públicas brasileiras de desenvolvimento.

Reagimos porque não é possível admitir a violência como instrumento de regulação social. Reafirmamos aqui nosso compromisso de lutar com as nossas armas: documentando, refletindo e oferecendo à sociedade interpretações sobre esse fenômeno sociopolítico que acompanha o “desenvolvimento sustentável” na Amazônia: a morte anunciada dos defensores da floresta.

“Matar árvores é assassinato” (Zé Claudio)

Casal de ambientalistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo, que foram assassinados em Nova Ipixuna, Pará (Divulgação/Arquivo CNS)